Um PT com a cara de Dilma na Esplanada

CORREIO BRAZILIENSE – DF | POLÍTICA

PAULO DE TARSO LYRA

Presidente escolhe petistas mais próximos a ela do que a Lula no primeiro escalão, e diminui o poder da legenda em campos prioritários. Anúncio das pastas deve ser concluído hoje
258427055.jpgA presidente Dilma Rousseff retorna hoje do breve descanso em Aratu (BA) e, se cumprir o prometido durante o café da manhã com jornalistas na semana passada, concluirá o anúncio do primeiro escalão do governo. Criticada por petistas de todas as tendências – da esquerda ao campo majoritário, passando pelo ex-presidente Lula – a Esplanada dilmista consolida um desenho político com um PT em menos ministérios (até agora, estão garantidos 13 dos 15 anteriores). Mais do que isso. Pela primeira vez em 12 anos, o partido de Lula e Dilma não dará as cartas na equipe econômica nem no Ministério da Educação, considerado pela própria presidente um dos pontos centrais do segundo mandato.

Responsável pelo ajuste econômico profundamente ortodoxo, a equipe comandada pelo novo titular da Fazenda, Joaquim Levy, não tem nenhuma afinidade com o PT. Pelo contrário. Levy chegou a dar palpites para o tucano Aécio Neves durante a campanha eleitoral. Nelson Barbosa, ao longo do período sabático que tirou do governo federal, criticou o desequilíbrio nas contas públicas. A dupla está acomodada no Ministério da Fazenda e do Planejamento.

Nem mesmo nos momentos mais duros, do ponto de vista econômico, da gestão petista, a legenda esteve fora do controle do processo. Em 2003, o ministro da Fazenda era Antonio Palocci (por quem a militância partidária não nutre simpatias, mas que, ao menos, é filiado). Ele foi substituído por Guido Mantega, economista histórico da sigla.

Curiosamente, Mantega começou a trajetória no governo em 2003, justamente no Ministério do Planejamento. Ao ser deslocado para a presidência do BNDES, depois da rápida passagem de Carlos Lessa no Banco público, Mantega foi substituído pelo então deputado Paulo Bernardo. Quando Dilma chegou ao poder, em 2011, Bernardo foi deslocado para o Ministério das Comunicações e o Planejamento foi assumido por Miriam Belchior, viúva do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel.

A trajetória do PT na pasta da Educação também é ininterrupta. Começou com Cristovam Buarque (hoje no PDT, mas, à época, petista). A gestão durou apenas um ano, quando o ministério passou a ser conduzido por Tarso Genro. Em seguida, vieram Fernando Haddad, Aloizio Mercadante e Henrique Paim. Os petistas históricos têm a pasta em tão alta conta que brincam que ela é uma alavancadora de carreiras de filiados: Tarso Genro foi governador do Rio Grande do Sul entre 2010 e 2014; Haddad elegeu-se prefeito de São Paulo, e Mercadante é, hoje, chefe da Casa Civil e o ministro mais influente da Esplanada.

A partir de 1º de janeiro, o MEC estará sob os cuidados de Cid Gomes, filiado ao Pros. Cid é admirado pela presidente Dilma Rousseff. O Correio de ontem mostrou, inclusive, que existem negociações para que o ainda governador do Ceará – o mandato dele só se encerra daqui a dois dias – migre do Pros para o PT. Na bagagem, levaria um nome, ainda indefinido, para disputar a prefeitura de Fortaleza em 2016. Gomes rompeu com o PSB em 2013 por ser contrário à candidatura de Eduardo Campos ao Planalto, e foi fundamental na eleição do petista Camilo Santana para sucedê-lo no governo estadual.

Na lista de ministros anunciada até o momento, apenas um é petista: Jaques Wagner, que foi cotado para diversas pastas, mas acabou no Ministério da Defesa. Hoje, Wagner deve receber, em Salvador, o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que pode gerar estranhamento com os comandantes das Forças Armadas antes mesmo de o petista assumir o posto.

Satisfação

A permanência do PT em alguns dos postos que ocupa não significa que a legenda se sinta pacificada. A principal tendência partidária queixa-se de que está longe do centro do poder, já que Mercadante é mais dilmista que lulista. O PT tenta recuperar o Ministério do Trabalho, mas o PDT garante que Manoel Dias continua. Celso Amorim, que deixará o Ministério da Defesa, pode retornar ao Ministério das Relações Exteriores, embora a visão de política externa dele seja divergente do estilo de Dilma. Amorim recuperou o prestígio com a presidente por manter os comandantes das Forças Armadas em calma durante o debate da Comissão Nacional da Verdade.

A maioria dos ministérios com nomes em aberto será comandada pelo PT. Há dúvidas na Cultura, já que a presidente ainda tenta convencer o jornalista e escritor – e filiado ao PMDB – Fernando Morais para assumir a pasta. Nos Transportes, a vaga será do PR, embora haja resistências ao nome do ex-senador Antonio Carlos Rodrigues, por sua ligação com Valdemar da Costa Neto, que cumpre pena pelo julgamento do mensalão.

Ministério versão 2015

Pastas que faltam ser anunciadas Partido

Casa Civil: Aloizio Mercadante PT

Secretaria de Relações Institucionais: Pepe Vargas PT

Transportes: Antonio Carlos Rodrigues (cotado) PR

Trabalho: Pedetistas dizem que Manoel Dias fica PT ou PDT

Política para mulheres: Eleonora Menicucci deve continuar PT

Desenvolvimento Agrário: indefinida PT

Cultura: PT quer Juca Ferreira, a presidente tenta Fernando Morais PT ou PMDB

Secretaria de Assuntos Estratégicos: indefinida –

Relações Exteriores: indefinida –

Saúde: Arthur Chioro PT

Secretaria de Comunicação Social: indefinida –

Justiça: José Eduardo Cardozo PT

Previdência Social: Carlos Gabbas (cotado) PT

Desenvolvimento Social: Tereza Campelo PT

Comunicações: Ricardo Berzoini PT

Meio Ambiente: indefinida

Direitos Humanos: indefinida PT

Gabinete de Segurança Institucional (GSI): indefinida

Secretaria-Geral da Presidência: Miguel Rossetto PT

Advocacia-Geral da União: Luís Inácio Adams sem partido

Micro e Pequena Empresa: Guilherme Afif Domingos PSD

Pastas já confirmadas Partido

Pesca e Aquicultura: Helder Barbalho PMDB

Defesa: Jaques Wagner PT

Agricultura: Kátia Abreu PMDB

Turismo: Vinicius Lage PMDB

Esporte: George Hilton PR

Educação: Cid Gomes Pros

Ciência e Tecnologia: Aldo Rebelo PCdoB

Cidades: Gilberto Kassab PSD

Aviação Civil: Eliseu Padilha PMDB

Integração Nacional: Gilberto Occhi PP

Portos: Edinho Araújo PMDB

Desenvolvimento, Indústria e Comércio: Armando Monteiro PTB

Planejamento: Nelson Barbosa sem partido

Minas e Energia: Eduardo Braga PMDB

Banco Central: Alexandre Tombini sem partido

Controladoria-Geral da União: Valdyr Simão sem partido

Igualdade Racial: Nilma Lino Gomes sem partido

Fazenda: Joaquim Levy sem partido

Gabrielli deixa secretaria

O ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli deixará nesta semana o cargo de secretário de Planejamento da Bahia. Após denúncias de irregularidade na compra da refinaria de Pasadena (EUA), Gabrielli reuniu os auxiliares há cerca de dois meses e anunciou que não continuaria no governo. Discreto, Gabrielli também faltou à diplomação do governador da Bahia eleito, Rui Costa (PT), que divulgou nesta semana que o ex-presidente da estatal não faria mais parte da equipe. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, Gabrielli tirará dois meses de férias e se dedicará a defesa das acusações. Ele deve pedir aposentadoria da Universidade Federal da Bahia, onde era professor de economia, e continuará como conselheiro de duas petrolíferas portuguesas.

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