Dilma diz ao PT que ajuste econômico é necessário para manter governabilidade

O ESTADO DE S. PAULO – SP | POLÍTICA
Ricardo Galhardo

Novo governo. Durante reunião do diretório nacional do partido e em meio às críticas pela escolha de Joaquim Levy para a Fazenda, presidente diz que confia na "maturidade" dos petistas: "Temos que estar unidos"; direção da sigla considera guinada ortodoxa "coisa feita"

Em meio a críticas do PT e de movimentos sociais pela escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, a presidente Dilma Rousseff associou ontem a guinada ortodoxa com escolha dos nomes da equipe econômica à governabilidade. Ao mesmo tempo, fez um apelo à "maturidade" dos petistas, que reclamam do fato de ela ter sido reeleita com um discurso – contra o corte de gastos – e agora sinalizar com uma prática oposta.
"Nós temos que tomar as medidas necessárias, sem rupturas, sem choques, de maneira gradual e eficiente como vem sendo feito. Temos que estar unidos. Eu preciso do protagonismo de todos vocês e neste protagonismo destaco o PT. O PT tem maturidade e hoje, depois de todo esse período, sabe que precisamos ter legitimidade e governabilidade", afirmou a presidente, em seu primeiro encontro com a cúpula do partido depois da reeleição.
Dilma comemorou o fato de o País terminar o ano dentro do topo da meta de 6,5% de inflação, mas disse que não está satisfeita e que medidas devem ser tomadas. Por isso, ela desafiou o partido a renovar suas perspectivas diante das demandas econômicas.
"A conjuntura muda, a situação do País muda, as condições da economia mudam. Nós nos adaptamos às novas demandas e damos respostas a cada uma delas. Acho que esta é a grande missão do PT", disse ela.
Por outro lado, a presidente fez afagos ao PT, garantindo que a condução ortodoxa da economia não vai afetar a essência do programa do partido. "Uma coisa deve ficar clara e ninguém deve se enganar sobre isso. Fui eleita por forças progressistas, não para qualquer processo equivocado, mas para continuar mudando o Brasil."
Bem humorada, Dilma lembrou que, embora tenha sido eleita pelo PT, lidera uma coalizão de partidos e tem a obrigação de governar para todo o conjunto da população. "O governo não é um governo meu, no sentido que ele é só meu e eu guardo abraçadinha nele. O governo é do PT e dos partidos da nossa aliança porque nós fizemos uma aliança e dos movimentos sociais. Mas também o governo é dos que votaram em mim e dos que não votaram." Falando para o partido, Dilma voltou a defender a reforma política, uma das prioridades da agenda petista, desta vez de forma mais objetiva
"Coisa feita". Os dirigentes petistas consideram "coisa feita" a nomeação de Levy, economista que é discípulo de Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e conselheiro da campanha de Aécio Neves (PSDB) fortemente atacado por Dilma durante a campanha eleitoral em razão de suas ideias ortodoxas.
Embora contrariadas, as principais correntes do partido não devem tornar públicas críticas às escolhas da presidente. Em troca, o partido vai pedir mais empenho do governo em questões caras à base petista, como o marco regulatório dos meios de comunicação, a revisão do fator previdenciário, reforma fiscal, questões trabalhistas e indígena. O PT também deve cobrar espaço mais qualificado no ministério. A legenda já dá como certo que terá um número menor de ministérios no segundo mandato de Dilma. Conforme um importante dirigente petista, isso deve ser compensado com a indicação de "líderes capazes de fazer a disputa política nas suas áreas". Ou seja, o PT quer um ministério mais político e menos burocrático e hermético do que o do primeiro mandato.
Precedente. Embora os nomes de Levy e de Kátia Abreu – senadora do PMDB e ruralista escolhida para o Ministério da Agricultura – não agradem a setores do PT, eles dizem que "o que vai prevalecer" é o programa de governo do partido. Para driblar as críticas, os dirigentes fazem uma comparação com o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, quando Henrique Meirelles -na época um banqueiro filiado ao PSDB -foi escolhido para o Banco Central, o "petista conservador" Antonio Palocci para a Fazenda e Roberto Rodrigues, representante do agronegócio, para a Agricultura. / COLABOROU CARMEN POMPEU, ESPECIAL PARA O ESTADO
PARA LEMBRAR
O "cavalo de pau" de 2003
Quando o PT chegou à Presidência da República, no ano de
2003, o governo Luiz Inácio Lula da Silva adotou medidas ortodoxas na economia, bem mais intensas do que as atuais. Naquela época, o Brasil corria riscos de descontrole inflacionário, e a desconfiança do mercado com Lula era alta. Com cinco meses de gestão petista, o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, resumiu o clima no partido durante uma reunião fechada com dirigentes. "O governo não está realizando neste momento os seus objetivos, porque o superávit primário de 4,25% ao ano e os juros de 26,5% estão desestimulando e segurando a atividade econômica (…). A queda da atividade econômica no País é visível, seria ridículo se eu dissesse o contrário", disse Dirceu, que foi além na avaliação: "Se nós não demos um cavalo de pau no País, nós demos um cavalo de pau na economia, porque com os juros, o superávit e o contingenciamento é evidente que as consequências aparecem imediatamente".
• Discurso oficial
"É a equipe (econômica) possível diante do momento que estamos vivendo"
"Preservando isso (investimentos sociais, principalmente o PAC), pode cortar à vontade" José Guimarães VICE-PRESIDENTE DO PT
"Vai ser muito importante atuar politicamente. Mostrar à sociedade para que ela entenda que nós vamos fazer essa inflexão (corte de gastos), mas isso é uma coisa temporária"
"Essa equipe (econômica) tem o simbolismo necessário para essa tarefa (ajuste econômico) que nós vamos enfrentar"Humberto Costa SENADOR (PT-PE)

Anúncios

Sobre Blog dos Bancários

Bancário
Esse post foi publicado em Noticias. Bookmark o link permanente.