O problema é a Dilma

CORREIO BRAZILIENSE – DF | ECONOMIA
CORREIO ECONÔMICO – SÍLVIO RIBAS

A presidente Dilma Rousseff é o maior empecilho para a nomeação do sucessor de Guido Mantega no Ministério da Fazenda. Ela tem o poder da caneta, mas são poucos os economista de peso dispostos a encarar a chefia da equipe econômica sabendo que terão de lidar com uma pessoa voluntariosa, intervencionista e que trata os subordinados aos gritos quanto contrariada.
Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, tem a clara noção de quem é Dilma. Por isso, não titubeou em dizer não ao convite feito pela presidente. Delicadamente, ele alegou compromissos com o Banco que preside, já que assumirá, nos próximos anos, a presidência do Conselho de Administração da segunda maior instituição financeira privada do Brasil, no lugar de Lázaro de Mello Brandão.
Aos poucos interlocutores com os quais conversou desde que foi convidado por Dilma, Trabuco colocou empecilhos para suceder Mantega. Apesar de, oficialmente, manter um discurso muito alinhado com o Palácio do Planalto, não acredita que realmente a presidente esteja disposta a mudar os rumos da política econômica, marcada pelo desastre fiscal, pela inflação alta e por crescimento baixo.
O presidente do Bradesco ficou particularmente preocupado com o fato de, em meio à busca de um sucessor de Mantega, o governo enviar ao Congresso Nacional um projeto que acaba com a meta de superavit primário. Sem esse compromisso fundamental para reduzir a dívida pública, dificilmente haverá um ajuste fiscal consistente nos próximos anos que evite a perda do grau de investimentos pelo país. E, certamente, esse rebaixamento mancharia o currículo impecável do executivo que começou como boy e chegou ao segundo cargo mais importante do Bradesco.
Dilma acredita que chegará ainda hoje a um nome que lhe agrade – isso significa dizer fazer o que ela quer -, que agrade ao PT e que satisfaça o mercado financeiro. Dos nomes que estão na lista de apostas, nenhum consegue reunir tantos predicados. Se Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro, e Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, são palatáveis ao PT e aos investidores, não contam a total simpatia da presidente, a quem cabe dar a última palavra. Ela e Levy se atropelaram no início do primeiro mandato de Lula por questões do setor elétrico. Sobre Meirelles, basta dizer que a presidente nunca o suportou nos oito anos em que conviveram no governo.
Nelson Barbosa já desfrutou da simpatia de Dilma, mas não é tão bem avaliado dentro do PT e no mercado. Por uma simples razão: ele não teria a autoridade para fazer os duros ajustes que precisam ser feitos na economia. Os investidores não lhe dariam tanto tempo para agir. A cobrança seria pesada. No caso do presidente do BC, Alexandre Tombini, que já indicou não querer o comando da Fazenda, há um bom relacionamento com Dilma, o PT não o reprova, mas o mercado o vê como mais do mesmo.
Ou seja, ou Dilma, ou o PT, ou o mercado terá de reduzir as exigências. O quadro é claro: há uma urgência em se definir quem comandará a economia a partir de 2015 e qual será a política a ser seguida. O país está parado. Diante da indefinição e do medo de que as escolhas erradas nos últimos quatro anos prevaleçam no segundo mandato da petista, os empresários suspenderam os investimentos produtivos.
É verdade que a presidente não está sob a pressão que se viu em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez para comandar o país. Mas, se nada for feito rapidamente para resgatar a confiança do capital, há o risco de vermos a economia afundar em 2015 e comprometer os três anos seguintes. A escolha do ministro da Fazenda é somente uma das peças para evitar o pior. Dilma, com todos os seus defeitos e limitações, perdeu o direito de errar.
A mágoa profunda de Mantega
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anda ressabiado com as negociações em torno de seu sucessor. Já disse, inclusive, à presidente Dilma que é preciso escolher um nome que não represente uma ruptura com a política econômica que prevaleceu nos últimos quatro anos. Mantega ainda não digeriu, por completo, a forma como foi demitido pela chefe. Ser descartado, sem aviso prévio, pela imprensa, o feriu profundamente. Mas nada o deixará tão magoado como deixar o cargo com o carimbo de que tudo o que fez no governo estava errado.

Tudo que o Bradesco queria
» Um interlocutor do governo andou divagueando sobre o que seria a gestão de Luiz Trabuco à frente do Ministério da Fazenda. Ele sairia direto da presidência do Bradesco para comandar as duas maiores instituições públicas de varejo – Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal -, teria poder de intervenção no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), assumiria o controle do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e definiria os rumos do Minha Casa, Minha Vida. Teria acesso a informações que o Bradesco adoraria saber.

Linha direta com Graça
» Mesmo com a cabeça focada na definição do sucessor de Mantega na Fazenda, Dilma não desgrudou do telefone. Manteve linha direta com a presidente da Petrobras, Graça Foster, para saber todos os detalhes sobre o maior caso de corrupção da história do país. Não quer ser surpreendida com nenhum fato.

Contagem regressiva
» O Planalto aposta que o novo ministro da Fazenda pode sair ainda hoje. As cotações de Joaquim Levy e de Nelson Barbosa estão nas alturas.

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