Para influir na Fazenda, PT recorre à campanha

O ESTADO DE S. PAULO – SP | POLÍTICA
Ricardo Delia Coletta Adriana Fernandes Vera Rosa / Brasília

Sigla usa discurso de Dilma para fazer lobby por nome menos ortodoxo no ministério

O PT admite que o governo precisa reconquistar a credibilidade com o mercado financeiro, mas a escolha de um economista com perfil ortodoxo para substituir Guido Mantegano Ministério daFazenda é rechaçada pela cúpula do partido. A avaliação de dirigentes ouvidos pelo Estado é que a nomeação de um economista “pró-mercado” representaria a antítese do discurso encampado na campanha, quando a presidente Dilma Rousseff tentou colar nos oponentes a marca de “candidatos dos banqueiros”.

Embora petistas digam que não pretendem criar “constrangimentos” para a escolha, no que depender do PT o novo ministro da Fazenda tem nome: o ex-secretário executivo da Fazenda Nelson Barbosa, que deixou o governo em maio de 2013 após se desentender com o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Nas palavras de um ministro do PT, Barbosa é “um ótimo economista”, “ponderado” e que “ouve bastante”.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vê Barbosa, um colaborador de seu instituto, com bons olhos. Mas nos bastidores abre possibilidade de opções ortodoxas e tem emitido sinais positivos por duas alternativas: o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles e o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco.

O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), comenta as opções: “Os três são boas escolhas e a presidente vai poder escolher de acordo com o perfil que preferir. O Nelson Barbosa tem boa sensibilidade política e social. Ele tem um perfil muito bom de diálogo com o Congresso”. Já o vice-presidente do PT, deputado José Guimarães (CE), diz que o nome deve atender ao mercado, mas também a outros “setores da sociedade”. “Cabe àpresidente escolher o novo ministro de acordo com as exigências do momento. É bom que o nome dialogue com o País, com o mercado e com os setores da sociedade.”

Crise. No início do ano passado, Lula chegou a sugerir que Dilma trocasse Mantega por Meirelles. Elanuncateve simpatia pelo ex-presidente do BC e não aceitou. Agora, Lula tem dito a interlocutores que a presidente precisa nomear alguém do mercado financeiro para acalmar os investidores num momento de crise econômica.

Mas o comando do PT vê essa ideia com restrições. Na campanha, o partido fez duras críticas àentão candidatado PSB,Marina Silva, por sualigação com Ne-ca Setúbal, acionista do Banco Itaú e coordenadora do programa de governo da ex-ministra.

Parlamentarespetistas destacam que Meirelles fez oposição àpolíticaanticíclicaadotadape-la equipe econômica no ápice da crise financeira de 2008, durante o governo Lula. Para um integrante da Executiva nacional do PT, o nome mais palatável é o de Barbosa. O argumento é que “nem pode ser só Estado nem só mercado”.

Apostas com agenda ainda mais conservadora, como o ex-secretário do Tesouro Joaquim Levy, desagradam mais ao partido. Um ministro do PT, sob a condição de anonimato, classifica Levy como “ultra ortodoxo”.

Em documento intitulado “Comemoração e Luta!”, a corrente petista Articulação de Esquerda, ao abordar os desafios trializantes e de investimentos para a elevação da produção.” Para acalmar investidores, Dilma pretende anunciar o novo titular da Fazenda antes da reunião da cúpula do G-20, marcada para os dias 15 e 16 de novembro, na Austrália.

Cenário. Apesar do tom otimista da campanha, auxiliares de Dilma admitem que o cenário a ser enfrentado pelo futuro ministro é delicado. É grande a preocupação com a queda de receitas,o que compromete apolí-tica fiscal e o cumprimento da meta do superávit primário. O governo não conseguirá alcançar a meta estabelecida para este ano e corre o risco de registrar o pior resultado desde 1997.

Pelo cenário adverso, a ordem no Planalto é reforçar a articulação política para evitar que o Congresso aprove propostas que ampliem despesas e pressionem as contas públicas.

Indigestão

Inserção de TV da campanha petista, do dia 9 de setembro, relaciona banqueiros sorridentes a sofrimento por falta de comida. “Marina tem dito que, se eleita, vai promover a independência do Banco Central. Isso significa entregar aos banqueiros um grande poder de decisão sobre sua vida e de sua família, os juros que você paga, seu emprego, preços e até salários”, diz o narrador da propaganda.

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