Banqueiros, de novo (Artigo)

VALOR ECONÔMICO -SP | OPINIÃO
José Roberto Campos

Pode-se governar sem banqueiros, mas não se pode ignorá-los. A banca é o algoz que os petistas amam odiar e a campanha para a reeleição de Dilma Rousseff causou espanto e incredulidade pela manipulação de imagem.

Nela, os banqueiros não chegam a comer criancinhas, feito que a direita atribuía aos comunistas antigamente, mas roubariam a comida da mesa do brasileiro e seu emprego, se a eles fosse entregue um Banco Central independente. A propaganda foi uma das que ajudaram a expelir da disputa a candidata Marina Silva, autora da proposta.

O estereótipo até cumpriu sua missão de reafirmar para militantes o caráter “de esquerda” do PT – saudosismo de um passado remoto.

Ele é falso, claro. Envolto em malfeitos, como as legendas fisiológicas que abraçou sem critérios, o PT se aliou a políticos conservadores ou de má reputação, como José Sarney, membro da Arena, partido da ditadura, Paulo Maluf, idem, Jader Barbalho, Fernando Collor, Renan Calheiros e outros mais. O partido não vê problemas nesse tipo de convivência, já com a dos banqueiros…

Com os banqueiros foi um mero baixo truque eleitoral. Apenas um dia depois de contados os votos e Dilma vencer, eles apareceram de novo, agora do outro lado do balcão: como candidatos a ministro da Fazenda. Houve a indicação e não se sabe se algum deles chegará lá, o que só seria estranho ou contraditório para quem acreditou na propaganda enganosa. PT e financistas conviveram harmoniosamente no governo Lula e os bancos são um dos principais contribuintes de campanha da legenda.

Foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quem, no início do reinado petista, procurou e entregou a um banqueiro a direção do Banco Central: o ex-presidente doBank of Boston no Brasil, Henrique Meirelles, que ainda por cima acabara de ser eleito deputado federal por Goiás pelo rival PSDB. Em linguajar petista, a raposa foi tomar conta do galinheiro – ao final de 8 anos de produtiva convivência, salvaram-se todas as galinhas e a raposa, ao que se sabe, não ficou insatisfeita.

A parceria entre Meirelles e Lula foi muito bem-sucedida, apesar dos resmungos do partido. Em um momento importante da história, Meirelles aceitou entrar no ninho petista. Foi um dos poucos financistas de mercado que aceitou fazê- lo e só se arriscou porque recebeu todas as garantias de Lula de que teria carta branca para agir e uma missão a cumprir. Ambos entregaram o que prometeram.

Meirelles abrigou no BC um time que, por convicção, passaria longe de um governo petista. No entanto, estava escudado por Lula contra o fogo amigo, que não o poupou – nem a ninguém. A determinação de Lula era abrir espaço para criação dos mais abrangentes programas sociais da história e de um verdadeiro mercado de massas no país, razões pelas quais resolveu manter a inflação estritamente sob controle, fazer rigoroso ajuste fiscal e debelar a enorme desconfiança dos investidores. Antônio Palocci, na Fazenda, e Meirelles no BC, foram peças chaves para isso.

Ao longo dos dois mandatos de Lula, Meirelles se cercou de um time de bem preparados economistas vindos de instituições financeiras e construiu sua ilha de ortodoxia no BC. Entre eles estavam Afonso Bevilaqua, economista do “inimigo” FMI, Luiz Candiota, ex-diretor do Citibank, Eduardo Loyo, economista-chefe do UBS Pactual, Alexandre Schwartsman, economista chefe do Indosuez e BBA Corretora, Rodrigo Azevedo, do Banco Garantia e diretor- executivo do Banco de investimentos Credit Suisse First Boston, Mario Torós, diretor para mercados emergentes e responsável pela tesouraria do Banco Santander e Mário Mesquita, economista chefe do ABN Amro.

Bevilaqua, Loyo e Mesquita, além disso, eram ligados à PUC-Rio, berço dos principais economistas do time do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Meirelles e sua turma entraram quebrando inteligentemente as expectativas. De cara, na primeira reunião do BC na era Lula, em 22 de janeiro de 2003, subiram os juros para 25,5% ao ano e, na seguinte, para 26,5%. O BC impôs credibilidade, mostrando aos petistas que um governo seu era capaz de subir os juros. Aos não petistas, céticos, provou que tinha autonomia para fazê-lo. Já em junho, começou a cortar agressivamente as taxas.

Não conseguiu, porém, se livrar de pesado bombardeio: fontes sempre não identificadas do Planalto reclamavam da política do BC às vésperas de cada reunião do Comitê de Política Monetária.

O próprio presidente Lula, porém, jamais abriu a boca uma vez sequer para criticar em público a atuação do BC, nem mesmo quando o Banco cometeu o óbvio exagero de aumentar juros em 11 de setembro de 2008, dias antes de estourar a mais grave crise financeira global em quase um século e manter a taxa até janeiro, quando a economia brasileira já mergulhara em recessão.

Meirelles foi o único presidente do BC que por três vezes colocou a inflação abaixo do centro da meta: transem 2006, com 3,14%, em 2007, com 4,46%, e em 2009, com 4,31%.

A turma do PT em volta podia urrar e estrebuchar, mas foi beneficiada por suas ações. Meirelles mostrou domínio perfeito do “timing” para criar as condições favoráveis à reeleição de Lula e à vitória de seu sucessor, Dilma Rousseff.

Sem descuidar da inflação, o BC iniciou o ano eleitoral de 2006 reduzindo juros. Lula venceu. De abril de 2009 até o começo de 2010, jogou a taxa Selic a 8,75% ao ano, a mais baixa desde 1996. Começou a elevá-la apenas em junho de 2010, quando, pelos “efeitos defasados e cumulativos”, segundo o jargão do BC, os juros só teriam efeitos plenos em 2011. Assim, a economia brasileira, no ano eleitoral de 2010, cresceu 7,5%, recorde consagrador para qualquer candidato governista. Dilma ganhou.

Depois dessa parceria silenciosa e de sucesso, a política econômica mudou, a inflação subiu, o crescimento estagnou e na campanha eleitoral seguinte, malharam-se os banqueiros.

Apesar de muitos petistas não gostarem, oferecer o BC a um financista até faz algum sentido, porque ao menos eles têm algo parecido com “notório saber”.

Ofertar o Ministério da Fazenda parece um pouco de exagero, ou de desespero, mas olhando-se para o passado …. , por que não? Só por causa de propaganda feita para ganhar eleição? José Roberto Campos é editor executivo do Valor.

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