Contadora diz que PT deu dinheiro para mensaleiro quitar multa do STF

O GLOBO – RJ | PAÍS
Vinícius Sassine vinicius.jorge@bsb.oglobo.com.br

Dono de corretora condenado pelo STF recebeu R$ 45 mil afirma Meire Pôza

-Brasília- Pela primeira vez desde a sua instalação, em maio, um depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista da Petrobras acrescentou informações relevantes e inéditas para as investigações. A contadora que atuou para o doleiro Alberto Youssef e que já colaborou com a Polícia Federal (PF), Meire Pôza, depôs ontem por cerca de quatro horas e detalhou a suposta participação de políticos em esquemas do doleiro, entre eles o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Meire também revelou que o PT repassou dinheiro para Enivaldo Quadrado pagar a multa imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na condenação do esquema do mensalão. Quadrado, que era dono da corretora Bônus-Banval, foi condenado por lavagem de dinheiro no julgamento do mensalão, com aplicação de pena alternativa e de multa de R$ 28,6 mil (valor da época, que foi atualizado). Ele também agia para o doleiro, conforme as investigações da PF.

A contadora disse ter ido à casa do jornalista Breno Altman para receber R$ 15 mil mensais, por três meses, dinheiro repassado a Quadrado para o pagamento da multa, segundo ela. O total, portanto, teria sido de R$ 45 mil.

– O PT pagava os R$ 15 mil para a multa do mensalão (aplicada a Quadrado). Não tenho conhecimento de que isso estava relacionado a chantagem – disse Meire à CPI.

Segundo ela, os repasses foram em maio, junho e julho deste ano. Os pagamentos teriam continuado em agosto, mas diretamente a Quadrado.

Ela começou a atuar como contadora para os empreendimentos de Youssef em 2011. Passou a emitir notas fiscais frias a empreiteiras que simulavam a contratação de serviços. Meire admitiu ter emitido notas no valor de R$ 7 milhões e disse que sabia da ilegalidade do ato. Questionada por que continuou com o doleiro, mesmo sabendo dos esquemas, disse:

– O Alberto me perguntou uma vez se eu já tinha assistido ao filme “O Poderoso Chefão” e disse: “Aqui é igual, aqui é a máfia, quem entra não sai” A minha conta eu tenho condições para pagar, mas não pagarei pela conta dos outros.

A contadora disse que Youssef se reuniu com Renan para acertar investimentos do fundo Postalis, dos Correios, em uma empresa de Youssef. A reunião ocorreu em 12 de março deste ano, cinco dias antes da prisão do doleiro, segundo Meire. O montante envolvido é de R$ 25 milhões, referente à metade de uma de-bênture lançada no mercado para arrecadar dinheiro a um empreendimento do doleiro na área de turismo. Outros R$ 25 milhões seriam aportados pelo Funcef, da Caixa Econômica Federal.

– Eu estive com Youssef no café da manhã no dia 14. Ele afirmou ter vindo a Brasília dois dias antes e ter resolvido com o PT a aprovação da operação. Também disse ter conversado com Renan para acertar a ponta que era do PMDB e que, até o fim do mês, a operação com o Postalis iria sair. Não saiu porque Youssef foi preso – afirmou.

O GLOBO revelou a história em 12 de setembro e detalhou que Meire mencionou à PF a existência de um “acordo verbal” para que fundos de pensão investissem em ações de uma das empresas do doleiro. “Corretores” – intermediários que fariam o dinheiro chegar aos partidos -ficariam com 10%.

Em nota, Renan afirmou que “não conhece a pessoa mencionada no noticiário como “doleiro” Alberto Youssef e que só soube da existência do mesmo após as informações publicadas pelos jornais”. Ainda segundo a nota, Renan “nunca esteve, agendou conversas e nunca ouviu falar de Alberto Youssef e de sua contadora”

A contadora citou uma suposta participação da governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), no recebimento de propina por conta do pagamento de precatórios do governo do estado à Constran. Meire disse ter se reunido com Youssef e o então secretário da Casa Civil do Maranhão, João Guilherme Abreu. O interesse da Constran era receber R$ 123 milhões em precatórios. Segundo Meire, foi acertado pagamento de propina de R$ 6 milhões, por conta de um acerto para parcelamento dos precatórios em 24 vezes. O GLOBO tentou contato com os assessores da governadora. Não houve retorno. •

Anúncios

Sobre Blog dos Bancários

Bancário
Esse post foi publicado em Noticias. Bookmark o link permanente.