Fundos de pensão no vermelho

O GLOBO – RJ | ECONOMIA
Gabriela Valente valente@bsb.oglobo.com.br

Geralda Doca geralda@bsb.oglobo.com.br

Rentabilidade foi de apenas 2,02% em 2013. Setor caminha para o 3º ano seguido de déficit

BRASÍLIA. > A crise nos fundos de pensão das estatais acendeu um sinal de alerta na equipe econômica. De forma reservada, técnicos criticam os investimentos das entidades em ativos de retorno imprevisível e demorado. Em 2013, o desempenho dos fundos de pensão ficou muito abaixo da meta atuarial fixada para o sistema. De acordo com dados inéditos da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), as entidades conseguiram uma rentabilidade média de 2,02% no ano passado, só 17,36% da meta fixada para o ano: 11,63%, que equivale à taxa de juros real de 5,75% ao ano, mais o INPC acumulado de 5,56%.

A avaliação de técnicos da área econômica é que dificilmente esse resultado será revertido em 2014, e, assim, o setor caminha para o terceiro ano seguido de déficit. Conforme prevê a legislação dos fundos, essa conta terá que ser dividida entre os planos de previdência e os participantes.

Falhas na gestão e interferência política para viabilizar projetos de interesse do próprio governo são apontados por fontes da área econômica como causas dos problemas nesses fundos, combinadas com dificuldades relacionadas à crise econômica. Os déficits em cadeia têm como principais vítimas os aposentados, que veem seus rendimentos encolherem com a crise dos fundos.

Caixa questiona investimentos

A funcionária aposentada da Caixa Econômica Federal, Olga Marinho Costa, 69 anos, reclama que, depois de 31 anos de serviço, precisou continuar trabalhando com artesanatos para complementar a renda da família. Ela contou que contribuiu para receber uma aposentadoria complementar de 10 salários mínimos e que ganha da Funcef cerca de R$ 3 mil:

– É um absurdo o que estão fazendo com a gente. Vejo falar que estão financiando coisas que não prestam, e nosso dinheiro está indo embora.

Edimur Morais, aposentado pela Sistel, fundo de pensão do sistema Telebrás, calcula perda real de 20% da renda desde que se aposentou até agora. Segundo ele, há casos de colegas que perderam cerca de R$ 3 mil mensais nos últimos dois anos.

Com um patrimônio de R$ 680,4 bilhões e planos de benefícios que envolvem 6,480 milhões de participantes (ativos e inativos), os fundos de pensão fecharam 2013 com déficit de R$ 21,86 bilhões, mais do que o dobro do rombo registrado em 2012, que foi de R$ 9,07 bilhões.

Dois dos maiores fundos de pensão das estatais – Funcef (da Caixa Econômica Federal) e Petros (da Petrobras) – estão com déficit e terão que apresentar um plano para solucionar o problema. A PREVI (do Banco do Brasil) teve superávit, mas deixará de pagar bônus por lucratividade neste ano, diante das perdas com aplicações na bolsa.

A Funcef teve em 2013 déficit de R$ 3,116 bilhões, após rombo de R$ 1,371 bilhão em 2012. A entidade acreditava em resultado positivo este ano, mas já está convencida que não será possível. O presidente da Funcef, Carlos Alberto Caser, avisou sobre a necessidade de aporte de recursos pelos empregados e pela Caixa para cobrir o déficit.

Auditores da Caixa questionam os investimentos na Invepar (Petros, PREVI e construtora OAS, além da Funcef), sócia do consórcio que levou o aeroporto de Guarulhos com ágio astronômico e sem retorno à vista devido às exigências contratuais na primeira fase da concessão. A empresa ganhou a concessão da BR-040 (Brasília-Juiz de Fora), que terá que ser duplicada em cinco anos. Segundo os auditores, o retorno está R$ 200 milhões abaixo da meta atuarial, considerando os últimos três anos.

O investimento de R$ 455 milhões da Funcef na usina de Belo Monte, que teve o início da operação adiado, é criticado. Outra aplicação questionada é a participação da entidade (via fundos) na empresa Sete Brasil Participações S.A , que atua no mercado de sondas do pré-sal. Auditores independentes apontaram excesso de passivos sobre ativos em R$ 8,256 milhões em dezembro de 2013, indicador de insolvência. A participação da Funcef na Desenvix Energias Renováveis, que explora pequenas centrais hidrelétricas, parques eólicos e biomassa; e na empresa Eldorado Celulose S.A, do grupo JBS, são também investimentos com rentabilidade abaixo da meta.

Relatório de auditores independentes sobre as contas da Petros de 2013 apontou insuficiência de recursos para o custeio administrativo dos planos de benefícios. A entidade encerrou o ano passado com déficit de R$ 2,3 bilhões.

Fundos pressionam por mudança na lei

Ronaldo Tedesco, representante dos trabalhadores da Petrobras na Petros, critica os investimentos na Invepar. Ele diz que a construtora OAS é beneficiada, pois participa de concorrências públicas ancorada nos fundos. Os trabalhadores também reclamam que a Petros aplicou cerca de R$ 300 milhões na Lupatech (prestadora de serviços no segmento de petróleo), que está em situação de falência:

– Esses investimentos são de interesse do governo, que se aproveita da influência sobre os fundos. A pergunta é, se os investimentos que os diversos governos têm indicado para a Petros derem errado, a União garantirá a meta atuarial dos planos? Ou vão nos deixar a ver navios afundando?

Ele também citou as aplicações da Petros em bancos com dificuldades, como BVA, Morada, Cruzeiro do Sul e no grupo Galileo (Universidade Gama Filho, que faliu). No próximo mês, a provisão de calote nessas aplicações deverá ficar entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão, segundo Tedesco.

Diante dos problemas, os fundos de pensão pressionam o governo para alterar a lei, que exige um plano de Saneamento, se o rombo ocorrer por três anos seguidos. A proposta é flexibilizar a regra, conforme o fluxo de pagamento das aposentadorias.

O OUTRO LADO

ANÁLISE TÉCNICA E RETORNO ESPERADO

BRASÍLIA O diretor de Investimentos da Funcef, Maurício Marcellini, contestou os números apresentados pelos auditores da Caixa, alegando que os investimentos em fundos e participações em empresas têm gerado ganhos para a entidade. Ele disse também que projetos na área de Infraestrutura, que receberam recursos da Funcef, já estão maduros , prontos para dar retorno. Marcellini admitiu que a Funcef é procurada pelo governo federal, na tentativa de viabilizar seus projetos, mas disse que há demanda também do setor privado e que as decisões sobre investimentos são baseadas em pareceres técnicos. Segundo ele, a usina de Belo Monte enfrenta risco na construção, mas que isso está sendo acompanhado de perto pela entidade. Os ganhos com tarifas estão garantidos no futuro, disse.

– As propostas de investimentos vêm de diversas fontes, o governo conversa com a gente para tentar viabilizar seus projetos, não vou negar isso. Mas somos também procurados pelo setor privado -disse ele, que atribuiu o déficit da Funcef à conjuntura econômica pouco favorável, que prejudica os investimentos, sobretudo em renda variável.

Na mesma linha, a Petros informou que os investimentos são decididos depois de avaliações de comitês técnicos e de especialistas: Além de serem acompanhadas pelo setor técnico e seus comitês, as demandas de investimentos são avalizadas por consultorias externas contratadas , destacou a Petros em nota, acrescentando: O déficit registrado em 2013 foi de ordem conjuntural e se ampliou para todo o setor. A Petros tem capacidade de avaliar investimentos de maior risco, o que proporciona a rentabilidade necessária. No entanto, a Fundação acredita na necessidade de analisar os resultados de médio e longo prazo e não anualmente .

Por meio de nota, a PREVI informou que segue as normas para o setor e destacou que a entidade está superavitária: A PREVI vem obtendo resultados bastante positivos na gestão desses investimentos, diretamente no que diz respeito a adequados níveis de rentabilidade, risco e liquidez. Nos últimos dez anos, a rentabilidade da PREVI foi de 372,09%, contra meta atuarial de 199,06%. O patrimônio da entidade continua crescendo: terminou 2013 em R$ 171,1 bilhões contra R$ 167,6 bilhões em dezembro de 2012 . O Sistel não quis comentar a queda nos valor dos benefícios dos aposentados: O Sistel não vai comentar o assunto, por ser de natureza técnica, fora do espaço dos órgãos oficiais do setor previdenciário , informou a entidade em nota.

(Geralda Doca e Gabriela Valente)

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