Estatais emitem US$ 64 bilhões no governo Dilma

VALOR ECONÔMICO -SP | FINANÇAS
Por Bloomberg

As estatais brasileiras venderam um montante inédito de US$ 64 bilhões em bônus durante o mandato da presidente Dilma Rousseff, deixando mais investidores vulneráveis a prejuízos em função da deterioração da qualidade de crédito do país.

As captações feitas neste mês pela Petrobras e pelo Banco do Brasil elevaram para 43% a fatia de empresas estatais nas emissões externas de dívida corporativa, ante cerca de 22% quando Dilma tomou posse, em 2011. Isso se compara a 38% no México e 33% no Chile, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Embora o apoio governamental geralmente proporcione custos de captação mais baixos do que os obtidos por empresas privadas, a perspectiva de que o Brasil vá sofrer o primeiro rebaixamento de seu rating em mais de uma década contribuiu para desencadear prejuízos para credores de dívida corporativa equivalentes ao triplo da média vista nos mercados emergentes no ano passado. Com a desaceleração econômica, empresas privadas, da Vale ao Itaú Unibanco, têm evitado emitir bônus desde o quarto trimestre de 2012.

Empresas estatais “poderiam ser duramente atingidas por um rebaixamento de rating”, disse Rodrigo Cabernite, diretor de mercado de capitais do Standard Chartered. “Outras grandes empresas do país, por outro lado, estão reduzindo seus financiamentos em razão das incertezas com a economia”, afirmou.

Um assessor de imprensa do gabinete de Dilma não quis comentar o assunto. A assessoria do Ministério da Fazenda não respondeu aos pedidos de comentário.

Em outubro, a agência Moody”s reduziu de positiva para estável a perspectiva da nota “Baa2” do Brasil, a segunda mais baixa dentro da classificação de grau de investimento. Em junho, a Standard & Poor”s colocou em perspectiva negativa seu rating “BBB” (equivalente à nota da Moody”s) para o país, citando a deterioração da política fiscal, aumento da dívida bruta e baixo crescimento econômico.

Os bônus corporativos brasileiras perderam 2,2% nos últimos 12 meses, ante um recuo médio de 0,79% dos mercados emergentes. Os investidores estão exigindo um retorno adicional de 0,17 ponto percentual para comprar títulos corporativos brasileiros em vez de papéis similares de outros países em desenvolvimento, de acordo com índices do Bank of America.

O Banco do Brasil, maior Banco da América Latina em ativos, vendeu na quarta-feira passada € 300 milhões (US$ 418 milhões) em bônus com vencimento em 2018, oito meses após ter emitido €700 milhões do mesmo título. Na sexta-feira, o Banco captou mais US$ 1 bilhão por meio de um empréstimo sindicalizado de 22 bancos, com prazo de três e quatro anos.

A Petrobras, que tem US$ 113 bilhões em títulos no mercado, emitiu US$ 8,5 bilhões em bônus na semana passada, na maior oferta realizada até agora neste ano no mundo todo. Isso depois de uma colocação de US$ 5,1 bilhões de bônus denominados em euros e em libras em 7 de janeiro. Em maio do ano passado, a empresa emitiu US$ 11 bilhões em bônus, um recorde nos mercados emergentes.

Procuradas, as assessorias de imprensa do Banco do Brasil e da Petrobras não quiseram comentar o assunto.

“O mercado está realmente sendo influenciado pelo programa de financiamento da Petrobras”, afirmou Shamaila Khan, gestor de recursos em Nova York da AllianceBernstein, que tem US$ 458 bilhões sob gestão. “As empresas privadas só irão a mercado quando tiverem necessidade e, neste momento, não há grande demanda por financiamento diante de um crescimento econômico muito mais lento do que o esperado”, disse.

Pelas projeções de economistas de 100 bancos reunidas pelo Banco Central no boletim Focus divulgado na semana passada, a maior economia da América Latina vai crescer 1,7% neste ano, uma desaceleração em relação aos 2,28% de 2013.

A Vale levantou R$ 1 bilhão (US$ 430 milhões) em janeiro com uma emissão local de debêntures de Infraestrutura, que têm isenção de imposto de renda para investidores pessoa física e estrangeiros. A última emissão externa da empresa foi realizada em setembro de 2012.

Procurada, a mineradora não comentou o assunto. O diretor financeiro da Vale, Luciano Siani, disse em teleconferência com analistas em 27 fevereiro que a empresa emitiu as debêntures na expectativa de necessidades de financiamento “mínimas” para o ano. Naquela ocasião, ele disse ser improvável que a Vale venha a acessar novamente os mercados de capitais neste ano.

Em junho, o Itaú Unibanco levantou US$ 1,23 bilhão com um empréstimo sindicalizado. A última vez em que o Banco recorreu ao mercado externo foi em novembro de 2012. Procurado, o Banco não quis comentar seus planos de captação no exterior.

Revisson Bonfim, diretor de análise de mercados emergentes globais na Sterne, Agee & Leach , em Nova York, disse que, embora as estatais brasileiras vão ter de pagar mais para tomar empréstimos se o país tiver sua pontuação de crédito rebaixada, elas continuarão a encontrar compradores para os seus títulos.

“Normalmente, as empresas estatais não têm problemas para fazer isso”, disse ele. “Elas simplesmente têm de pagar mais.”

Peter Lannigan, diretor-gerente da corretora CRT Capital em Stamford, Connecticut, disse estar procurando evitar empresas vinculadas a governos. “Preferimos companhias que sejam tão pouco afetadas por aquilo que o Estado faz até onde isso seja realisticamente possível”, afirmou.

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