De olho no cliente alheio

BRASIL ECONÔMICO – SP | FINANÇAS
Léo de Luca

Itaú aceita cartões de débito de concorrentes para pagamento de contas em seus ATMs, com ajuda da sua Rede

O Banco Itaú acaba de implantar e está testando um novo modelo de negócio: receber o pagamento de contas com cartões de débitos de outros bancos. Os pagamentos podem ser feitos apenas em seus caixas eletrônicos, e valem apenas para faturas de cartões Itaucard, boletos de qualquer Banco desde que em dia, contas de concessionárias (luz, água, telefone), mesmo vencidas conforme explica banners colocadas em agências do Banco no Rio de Janeiro, em bairros como Botafogo, Catete e Centro.

Procurado, o Itaú confirmou a operação mas não quis se pronunciar. Por meio da assessoria de imprensa, informou que, por ser iniciativa ainda recente, ainda não é hora de fazer um balanço nem de dar mais detalhes ou publicidade ao assunto.

“É uma estratégia inovadora, inédita. Não tenho conhecimento de nenhuma outra iniciativa parecida”, diz Boanerges Ramos Freire, da Boanerges & Cia. Consultoria em Varejo Financeiro. O Banco vai atrair mais clientes e faturar mais tarifas por esse serviço. Para ele, é natural que o Itaú esteja querendo manter a novidade fora dos holofotes, para não chamar a atenção dos concorrentes.

Freire disse, porém, que embora não conheça o produto, alguém está pagando essa conta. “Tem alguma mágica aí, alguma brecha que o Itaú descobriu e está explorando”.

Nas agências, os empregados do Banco informam que os pagamentos são processados pela credenciadora do Banco, a Rede (exRedecard). É como um pagamento feito com cartões de débito em uma loja ou restaurante. Mas segundo especialistas do setor, não é uma operação tradicional, sujeita às mesmas regras de comissionamento. “O objetivo principal foi tirar gente das filas das agências”, previu um executivo próximo à operação.

O Itaú não informa, mas deve ter fechado acordo com outros bancos para aceitar seus meios de pagamento, passando assim a ser umagente na cadeia de pagamentos. Ainda assim, não pode ter acesso à conta corrente dos clientes alheios – por isso a transação precisa passar pela confirmação e autorização de uma processadora de cartões. O fato do Itaú ser o dono da Rede – e ter fechado seu capiBoanerges Ramos Freire B. R.F. Consultoria em Varejo tal na Bolsa – facilita, pois entre eles não há quem paga e quem recebe tarifas. Obanco B emissor do cartão tem acordo com a concessionária para receber seus pagamentos. O Itaú vai ser remunerado pelo Banco emissor que tem o acordo. A transação, portanto, não segue as regras normais de comissões e remunerações – só usa a Rede para dar a autorização.

OSantander, que é dono da Getnet – concorrente mais nova e menor da Rede e Cielo – poderia usar essa vantagem para seguir os passos do Itaú com sua Rede. Mas o Banco disse, por meio da sua assessoria de imprensa, que “estuda permanentemente as condições de mercado e trabalha de forma perene em busca de inovação com foco na oferta de serviços e produtos que ofereça a melhor relação custo x benefício para seus clientes.” Já o Bradesco não aceita e também não quis comentar o assunto. No caso da instituição, seria mais difícil mesmo usar a Cielo, do qual é apenas sócio (com o Banco do Brasil e investidores de mercado) e não dono, para processar os pagamentos feitos com cartões emitidos por outras instituições.

Freire lembra que até agora havia apenas duas formas de pagar contas, aceitas pelos bancos: em dinheiro – nos caixas ou internet banking – ou com cartões de Crédito. Quem inovou no Brasil nessa segunda opção, aliás, foi o Unibanco – hoje incorporado ao Itaú – há dez anos.

Embora essas transações não se caracterizem por compartilhamento de ATMs (os caixas automáticos dos bancos), podem ser uma alternativa encontrada pelo Itaú enquanto as decisões em relação ao compartilhamento não saem do papel. Se está difícil todos os bancos fecharem acordos com todos os outros, o Itaú sozinho parece que conseguiu fazer isso.

Segundo o relatório “Pagamentos de Varejo e Canais de Atendimento”, do Banco Central, em 2012 – último dado disponível do mercado – o faturamento dos mercados de cartões de Crédito e de débito atingiu R$ 468,4 bilhões e R$ 237,4 bilhões em2012, respectivamente, o que significa crescimento de 16,3% e 21,2% em relação ao ano anterior. O número de cartões de débito emitidos e ativos em 2012 apresentou crescimento de 11,4% e 13,8%, respectivamente. O ano terminou com 96,7 milhões de cartões de débito ativos, sendo 49,4 milhões da bandeira Visa Electron (marca da Visa) e 43 milhões da bandeira Maestro ( Mastercard).

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