Apesar da crise, bancos de Wall St. mantêm privilégios

Os maiores bancos de Wall Street, cujos tropeços causaram a crise financeira e a desaceleração da economia mundial, mostraram-se mais ágeis quando se tratou de contestar a reação política e reguladora.

O governo dos Estados Unidos, que prometia tornar o sistema mais seguro, rendeu-se a muitos dos protestos do setor financeiro. Parlamentares desistiram de mudanças que impediriam a realização de operações de risco por bancos de depósitos. Negaram-se a limitar o tamanho das instituições de crédito ou a proibir qualquer forma de derivativo.

As novas exigências mais estritas de liquidez e capital acertadas pelas autoridades reguladoras de todo o mundo foram adiadas por anos para ajudar na recuperação econômica.

“Continuamos a ouvir as mesmas pessoas cujos erros de julgamento foram centrais para o problema”, disse John Reed, 71 anos, ex-coexecutivo-chefe do CitigroupInc., para quem apenas 25% das mudanças necessárias foram colocadas em vigor. “Fiquei assombrado porque basicamente derrubamos a maior economia do mundo por um erro de administração dos bancos”, afirmou Reed.

Os dois últimos anos foram os melhores na história para o Bank of AmericaCorp., J.P. Morgan Chase& Co., Citigroup, Goldman SachsGroup Inc. e Morgan Stanley, em termos de receita combinada com operações de banco de investimento e de negociações, segundo dados reunidos pela Bloomberg.

O executivo-chefe do Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, 56, e seus principais auxiliares encaminham-se a receber mais de US$ 100 milhões em bônus adiados referentes a 2007 – seis meses após pagar US$ 550 milhões em acordo judicial para encerrar processo por fraude no comportamento da empresa naquele ano. O Citigroup, banco que precisou de mais dinheiro dos contribuintes, exibe um balanço patrimonial 14% maior que há quatro anos.

A armada de lobistas de Wall Street e seu histórico de contribuições a políticos não foram as únicas chaves para o sucesso, segundo parlamentares, acadêmicos e executivos do setor. A complexidade do setor financeiro deu aos executivos de bancos a vantagem de controlar a narrativa e de menosprezar as ideias de aspirantes de reformas como perigosas ou inviáveis.

Para demonstrar seus argumentos, banqueiros e lobistas descreveram as regulamentações propostas como prejudiciais à inovação, competitividade e crescimento econômico. Sustentaram que o setor aprendeu a lição e que as instituições financeiras estavam adotando mudanças voluntariamente, para serem mais transparentes e passíveis de prestar contas. As empresas bem-sucedidas não deveriam ser punidas pelos pecados das que fracassaram, acrescentavam.

Esses argumentos ressoaram entre alguns parlamentares, pressionados a tirar a economia de seu estado debilitado e a derrubar um índice de desemprego rondando os 10% desde agosto de 2009, maior nível em mais de 25 anos.

“Os grandes do setor financeiro convenceram muitas pessoas, particularmente no Congresso e na esfera da regulamentação, de que trazem valor para a economia com novos instrumentos e novas abordagens”, disse o senador Byron Dogan, democrata pela Dakota do Norte, que se aposenta neste ano. “Qualquer um que queira fazer algo visto como agressivo é chamado de populista radical.”

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi eleito em 2008, semanas após a quebra do Lehman Brothers Holdings Inc. O Federal Reserve (Fed, banco central do país) e o governo forneceram um volume de recursos sem precedentes para resgatar a American International Group Inc. (AIG) e nove dos maiores bancos dos EUA. Obama prometeu que seu governo “seria linha dura com a cultura da cobiça e da formação de esquemas”, que ele considerava ter levado à crise financeira. Enquanto Obama prometia mudar o sistema, preencheu os postos de sua equipe econômica com as pessoas que o ajudaram a criar.

Timothy F. Geithner, 49, que havia sido responsável por supervisionar bancos como o Citigroup quando presidente do Fed regional de Nova York, tornou-se secretário do Tesouro e nomeou um ex-lobista do Goldman Sachs como chefe de gabinete. Lawrence H. Summers, 56, que está deixando o cargo de direto do Conselho Econômico Nacional de Obama, foi contrário à regulamentação dos derivativos e, quando foi tanto secretário como vice-secretário do Tesouro no governo do presidente Bill Clinton, apoiou em 1999 o fim da Lei Glass-Steagall, da era da Depressão, que separava as atividades de banco comercial das de banco de investimento. “Em fevereiro de 2009 já estava muito claro que os bancos iam receber passe livre”, disse Simon Johnson, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), atualmente professor na Sloan School of Management, do Massachusetts Institute of Technology.

“Dava para ver, pela contratação de Tim Geithner e pelos recados que ele e sua equipe estavam enviando, de que isso iria muito mal.”

Pesquisa nacional realizada pela Bloomberg entre 4 e 7 de dezembro mostrou que 71% dos consultados nos Estados Unidos acham que os grandes bônus salariais deveriam ser proibidos neste ano nas firmas de Wall Street que receberam pacotes de resgate com dinheiro dos contribuintes, enquanto 17% disseram que bonificações acima de US$ 400 mil deveriam ter imposto único de 50%. Apenas 7% dos consultados na pesquisa consideraram os bônus como reflexo do retorno de Wall Street a um bom estado de saúde e um incentivo apropriado.

John Reed, o ex-executivo do Citigroup, disse não entender por que os parlamentares deram tanto crédito aos argumentos apresentados pelos participantes do setor financeiro, cujo trabalho é colocar os interesses de seus acionistas acima de qualquer preocupação com a segurança do sistema financeiro.

“Estou surpreso de que as pessoas em Washington achem que os acionistas são as pessoas que eles devem proteger”, disse Reed. “A mim, me parece que as pessoas que deveriam ser protegidas são [as de] todo o sistema bancário e as [de] muitas, muitas, muitas empresas que dependem dele. ”

Fonte: Valor Econômico

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